quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Crônica: Pela Cadeira de Noção

(originalmente publicada no Cometa Diário)

Por Samuel Rodrigues

Me lembro uma vez de uma comunidade do Orkut chamada "pela cadeira de noção". Como era bem explicado no perfil da comunidade, ela apoiava a instauração de uma cadeira de "noção" na faculdade, para tentar dar um pouco de bom senso a certas pessoas que entram no ensino superior com a mentalidade do ensino médio e acabam complicando a vida dos colegas em trabalhos em grupo, convivência pessoal e relacionamentos.

Depois de quase cinco anos no curso de Jornalismo, sou categórico em afirmar: sou a favor da cadeira de noção. Mas não no curso de Jornalismo. O motivo é simples: ela simplesmente destruiria o próposito do curso com todas suas forças e faltariam comunicadores no nosso dia a dia, dos fazedores de grandes reportagens aos operadores de TP. 

Por que isso? Convenhamos: quem, com um mínimo de noção, trabalharia no jornalismo? Encarar madrugadas a fio escrevendo, investigando, checando fontes, tudo na base da cafeína? Encarar a cobertura de um comício político tendo que escolher entre ficar no frio da bancada da imprensa, que corre o risco de cair com tantas câmeras em cima, ou ficar no calor do povo, escapando das bandeiradas?

(Aliás, se for para dar sugestão, que instaurem cadeiras no jornalismo que sejam integradas com Educação Física. Seriam muito mais úteis pras nossas formas rotundas de falta de exercício e cervejadas no happy hour)

Espremer-se entre outros jornalistas para conseguir a melhor foto. Esquecer da possibilidade da multa em troca da possibilidade do furo. Encarar nosso salário. Enfrentar nossa jornada de trabalho. Esquecer do nosso diploma... chega uma altura do campeonato em que você pensa: por que mesmo eu não fiz Engenharia?

A resposta é simples: porque você gosta de jornalismo.

Essa é uma conclusão que a gente só sente na pele. Só sente quando aquele crachá escrito "Imprensa" pesa no pescoço. Quando o Chatô pesa no ombro. Quando nosso vídeo é exibido na tela. Quando o nosso nome tá escrito no jornal. Por isso, reafirmo: instaurem a cadeira de noção. Mas não no jornalismo.

Nós não temos nenhuma noção.

E gostamos disso.

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